quarta-feira, 28 de março de 2018

“Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.” Jo 13,15 (29/03/2018)

Nesta quinta-feira iniciamos o Tríduo Pascal e aprendemos com Jesus a verdadeira essência da sua missão, servir com humildade e se entregando completamente por amor ao próximo, na sua entrega total Cristo faz ligação com a primeira celebração da pascoa, é Ele o verdadeiro cordeiro que tira o pecado do mundo. 

Na leitura do livro do Êxodo 12,1-8.11-14, Moises transmite ao povo todas as instruções recebidas de Deus para a preparação da Pascoa.
Leitura do livro do Êxodo: Naqueles dias, 1o Senhor disse a Moisés e a Aarão no Egito: 2“Este mês será para vós o começo dos meses; será o primeiro mês do ano. 3Falai a toda a comunidade dos filhos de Israel, dizendo: No décimo dia deste mês, cada um tome um cordeiro por família, um cordeiro para cada casa. 4Se a família não for bastante numerosa para comer um cordeiro, convidará também o vizinho mais próximo, de acordo com o número de pessoas. Deveis calcular o número de comensais conforme o tamanho do cordeiro. 5O cordeiro será sem defeito, macho, de um ano. Podereis escolher tanto um cordeiro como um cabrito: 6e devereis guardá-lo preso até o dia catorze deste mês. Então toda a comunidade de Israel reunida o imolará ao cair da tarde. 7Tomareis um pouco do seu sangue e untareis os marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerdes. 8Comereis a carne nessa mesma noite, assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 11Assim devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. E comereis às pressas, pois é a Páscoa, isto é, a ‘passagem’ do Senhor! 12E naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; e infligirei castigos contra todos os deuses do Egito, eu, o Senhor. 13O sangue servirá de sinal nas casas onde estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora quando eu ferir a terra do Egito. 14Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar, por todas as gerações, como instituição perpétua”. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Como na leitura do Livro do Êxodo Deus vem passar em nossa vida e devemos estar devidamente prontos para recebe-lo, no antigo testamento Ele liberta o seu povo da escravidão e hoje vem nos libertar de tantas outras coisas que nos escraviza no pecado, o sangue de Jesus derramado na cruz vem nos marcar como filhos libertos de Deus, eis a nossa marca.

No Salmo 115(116B) entoamos um canto de gratidão pelo ao Senhor que por nós se doa sem reservas, Ele é que nos liberta dos grilhões da escravidão.
O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor.
Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor? Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor.
É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus santos, seus amigos. Eis que sou o vosso servo, ó Senhor, mas me quebrastes os grilhões da escravidão!
Por isso oferto um sacrifício de louvor, invocando o nome santo do Senhor. Vou cumprir minhas promessas ao Senhor na presença de seu povo reunido.

Em sua carta aos 1 Coríntios 11,23-26, o apóstolo Paulo nos revela o momento da instituição da Eucaristia, mistério sublime em que Cristo se faz refeição para alimentar nossa fome e sede de paz.
Leitura da primeira carta de são Paulo aos Coríntios: Irmãos, 23o que eu recebi do Senhor, foi isso que eu vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão 24e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória”. 25Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança, em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei isto em minha memória”. 26Todas as vezes, de fato, que comerdes desse pão e beberdes desse cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Somente por um gesto de grande amor Jesus se fez pão e vinho, não simplesmente aquele pão que supri as necessidade fisiológicas do ser humano, não simplesmente aquele vinho que embriaga o homem fazendo perder a razão, Cristo se fez pão para alimentar as nossas forças para a difícil jornada a nossa vida e deu-se em vinho, mas vinho novo, o seu preciosíssimo sangue, que mostra que o caminho para santidade é feito de muitas tribulações e que no fim  participaremos da alegria do banquete da vida eterna.

São João 13,1-15 no seu evangelho nos mostra Jesus que se faz servidor para nos dar exemplo de qual caminho seguir para alcançar a santidade.
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João: 1Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
2Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. 3Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.
6Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: “Senhor, tu me lavas os pés?” 7Respondeu Jesus: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”.
8Disse-lhe Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. 9Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”.
10Jesus respondeu: “Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos”.
11Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: “Nem todos estais limpos”.
12Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? 13Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. 14Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz. — Palavra da Salvação. — Glória a vós, Senhor.

Como imaginar que alguém sabendo que seria traído e morto, teria um gesto de total amor e entrega? Jesus não segue os padrões de comportamento humano, seus atos só podem ser explicados de forma divina. Ao tirar o manto, pegar a toalha e bacia para lavar os pés dos discípulos, Ele coloca de lado a sua posição de Mestre e identifica com a pessoa do servo, vale lembrar que naquela época somente os servos e escravos lavavam os pés dos seus senhores.

A figura de Pedro nos mostra muitas vezes como agimos, sem entender as atitudes do Senhor ele não permite que Cristo lave os seus pés, mas Jesus diz se Pedro quiser ter parte com Ele deverá passar por cima das suas convicções e permitir que os pés sejam lavados.

Cristo conhece o coração de todos, sabia que seria traído por Judas e mesmo assim lavou os seus pés e também partilhou com ele o seu corpo e seu sangue, Jesus nos conhece em profundidade cada um de nós, sabe das nossas dificuldades, fraquezas e pecados, mas mesmo assim Ele vem ao nosso encontro para lavar os nossos pés, partilha conosco o seu corpo e seu sangue, chamando-nos para uma vida nova junto Dele e longe do pecado, Ele também chamou a Judas, que preferiu o caminho do pecado que o levou a morte. E nós qual caminho seguiremos? 

Que neste dia que se inicia a tríduo pascal aproveitemos para uma profunda mudança de vida, devemos chegar na Pascoa do Senhor com um coração limpo e novo, totalmente liberto das amarras do pecado, confiando sempre no Senhor e colocando nas suas mãos a nossa vida. Não podemos esquecer que a campanha da fraternidade deste ano nos convoca a juntos trabalharmos pela superação da Violência, mas isso somente será possível quando implantarmos o Reino de Amor que Cristo nos apresentou com a sua missão, é preciso ouvir a voz de Nosso Senhor que nos diz: “Vós sois todos irmãos”, agindo assim iniciaremos a partir a transformação deste mundo. Que Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia, nos ajude nesta missão.
Rubens Corrêa


sábado, 24 de março de 2018

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor: “Aclamemos o Crucificado” (25/03/2018)

A liturgia deste Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, nos convida a contemplar esse Deus que, por amor, veio ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, Se fez servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz que a liturgia deste domingo nos apresenta é uma lição maior, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação de sua vida por amor.

Primeira Leitura (Is 50,4-7)
Leitura do livro do profeta Isaías: 4O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo. 5O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. 6Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. 7Mas o Senhor Deus é meu auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

A missão do servo de Deus é aqui apresentada como forma de ajudar os desanimados com uma palavra de coragem. Ele mesmo se torna discípulo obediente e não se opõe à vontade do Pai nem se protege do sofrimento que envolve sua missão num mundo dominado pelo egoísmo e pela injustiça. Em meio ao sofrimento na realização de sua missão, sente a presença do Senhor que o defende e o renova. Por isso, não recua diante das dificuldades e ataques dos inimigos e oferece uma resistência passiva “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” ( Iz.50,6).

Salmo (Sl 21)
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Riem de mim todos aqueles que me veem, torcem os lábios e sacodem a cabeça: “Ao Senhor se confiou, ele o liberte e agora o salve, se é verdade que ele o ama!”
Cães numerosos me rodeiam furiosos, e por um bando de malvados fui cercado. Transpassaram minhas mãos e os meus pés, e eu posso contar todos os meus ossos.
Eles repartem entre si as minhas vestes e sorteiam entre si a minha túnica. Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe, ó minha força, vinde logo em meu socorro!
Anunciarei o vosso nome a meus irmãos e no meio da assembleia hei de louvar-vos! Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores, glorificai-o, descendentes de Jacó, e respeitai-o, toda a raça de Israel!

O salmista nos fala antecipadamente, tudo o que Jesus teria de passar durante o Seu martírio até o momento em que Ele sentiu-se abandonado pelo próprio Deus. Isso nos leva a pensar nos momentos em que também nos sentimos sem ninguém, vivendo a nossa dor, solitários no meio da multidão ao nosso redor. São momentos em que precisamos enfrentar o deserto tão necessário para o nosso crescimento. Mesmo assim, como Jesus, nós encontramos força para dizer: “anunciarei o vosso nome a meus irmãos e no meio da assembleia hei de louvar-vos!” O Pai, que sofre conosco, mesmo sem percebermos, se alegrará conosco com o nosso louvor.     

Segundo Leitura (Fl 2,6-11)
Leitura da carta de são Paulo aos Filipenses: 6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. 9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o nome que está acima de todo nome. 10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra 11e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Este belíssimo trecho que Paulo nos apresenta hoje em sua carta aos Filipenses, faz uma apresentação detalhada, muito clara da vida e missão de Jesus. A Sua condição inicial, que nos alimenta o hoje do Seu compromisso, toda trajetória, de entrega, de amor pela humanidade. O amor por nós leva-O a assumir a nossa identidade. O mistério da Sua paixão, da Sua morte como oferenda é pura caridade em favor de todo o povo, vem de Deus, para habitar conosco, na história e no tempo. Toda sua vida é serviço e doação, nos assume por inteiro. Identifica-se como homem. Em tudo igual a nós, menos no pecado. Por amor vem, por amor permanece, por amor dá a sua vida e nos levará à Deus, Seu Pai e nosso Pai, em sua glória eterna.

Evangelho (Mc 15,1-39 – Forma breve)
Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos: 1Logo pela manhã, os sumos sacerdotes, com os anciãos, os mestres da lei e todo o sinédrio, reuniram-se e tomaram uma decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos. 2E Pilatos o interrogou: Tu és o rei dos judeus? Jesus respondeu: Tu o dizes. 3E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações contra Jesus. 4Pilatos o interrogou novamente: Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te acusam!
5Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou admirado. 6Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que eles pedissem. 7Havia então um preso, chamado Barrabás, entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato. 8A multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse como era costume. 9Pilatos perguntou: Vós quereis que eu solte o rei dos judeus? 10Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja. 11Porém os sumos sacerdotes instigaram a multidão para que Pilatos lhes soltasse Barrabás. 12Pilatos perguntou de novo: Que quereis então que eu faça com o rei dos Judeus? 13Mas eles tornaram a gritar: Crucifica-o! 14Pilatos perguntou: Mas que mal ele fez? Eles, porém, gritaram com mais força: Crucifica-o!
15Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. 16Então os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é, o pretório, e convocaram toda a tropa. 17Vestiram Jesus com um manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça. 18E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus! 19Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele. 20Depois de zombarem de Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. 21Os soldados obrigaram certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, a carregar a cruz. 22Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota, que quer dizer “Calvário”. 23Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou. 24Então o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver que parte caberia a cada um. 25Eram nove horas da manhã quando o crucificaram. 26E ali estava uma inscrição com o motivo de sua condenação: “O rei dos judeus”. 27Com Jesus foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro à esquerda.(28) 29Os que por ali passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: Ah! Tu que destróis o templo e o reconstróis em três dias, 30salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!
31Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da lei, zombavam entre si, dizendo: A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! 32O Messias, o rei de Israel… que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos! Os que foram crucificados com ele também o insultavam. 33Quando chegou o meio-dia, houve escuridão sobre toda a terra, até as três horas da tarde. 34Pelas três da tarde, Jesus gritou com voz forte:Eloi, Eloi, lamá sabactâni? Que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” 35Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram: Vejam, ele está chamando Elias! 36Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo: Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz. 37Então Jesus deu um forte grito e expirou.
(Todos se ajoelham ou se inclinam por um instante.)
38Nesse momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes. 39Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: Na verdade, este homem era Filho de Deus! – Palavra da salvação. – Glória a vós, Senhor.

A Leitura que o Evangelho de Marcos nos apresenta hoje, é o relato da Paixão do Senhor. O Domingo de Ramos é o primeiro dia da Semana Santa e o último domingo antes da Páscoa. Nesta data, nós relembramos a entrada de Jesus Cristo na cidade de Jerusalém, onde foi recebido como rei pelo povo que, poucos dias depois, clamaria pela sua crucificação. Na leitura da Paixão, vemos um inocente sendo condenado, por ser bom, pela opção pelos pobres, por ter denunciado os pecados e injustiças dos poderosos, dos que detinham o poder religioso. Durante todo o tempo Jesus se manteve calmo e impassível, porém, próximo a hora da sua entrega, Ele está com um semblante de tristeza. Talvez o seu lado humano tivesse com medo do que estava por vir, talvez o seu lado divino apresentava-se triste pela insensatez dos seus algozes, que sem saber o que faziam, condenaram o homem errado, condenaram o próprio Filho de Deus entre eles, que veio fazer o bem, trazer a paz, nos ensinar a amar, sem nenhum interesse financeiro ou emocional, como nós o fazemos sempre. É hora de repensar a nossa vida, as nossas escolhas, os caminhos em que estamos trilhando, os amigos e amigas aos quais estamos copiando, seguindo, compartilhando uma vida de puro pecado, que nos tem afastado do caminho para a casa do Pai.

A entrada de Jesus na cidade de Jerusalém nos desperta para uma grande realidade: Assim como Ele mudou o mundo não com armas, mas com o seu amor infinito e incondicional, nós, seus seguidores, também podemos contribuir para um mundo melhor, podemos derrubar o poder das armas derramando na sociedade a palavra e a bondade divina. Para isso basta humildade, muita fé, prática da justiça, dedicação, coragem...Amados e queridos irmãos e irmãs ótima e abençoada Semana Santa. Paz e bem! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 
Marlene Coelho Resstel


sábado, 17 de março de 2018

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo” Jo 12, 24b (18/03/2018)

Neste quinto domingo da quaresma, vemos que Jesus já se prepara para a hora da sua entrega total, mesmo tendo a condição divina, Jesus sente-se angustiado, é a sua condição humana que aflora neste momento, mas, ele segue firme na sua missão e a cumpre até o fim, sendo esta semente que gera vida nova e plena. Nós seres humano e limitados, devemos nos espelhar no exemplo de Jesus não permitindo que o medo tome conta de nossa vida impedindo de cumprir a nossa missão, pois Jesus conta com a nossa semente para produzir muitos frutos.

Na primeira leitura o profeta Jeremias 31,31-34 nos fala da aliança definitiva de Deus com o seu povo.
Leitura do livro do profeta Jeremias: 31“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; 32não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão para retirá-los da terra do Egito, e que eles a violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor. 33Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois desses dias, diz o Senhor: imprimirei minha lei em suas entranhas e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo. 34Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’ Todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade e não mais lembrarei o seu pecado.” – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Mesmo depois que Deus manifestou o seu poder libertando o povo da escravidão do Egito, este mesmo povo por diversas vezes se mostra infiel ao amor de Deus, e eis que Jeremias nos fala desta nova e definitiva aliança, e ela deve estar dentro de cada um, não será seguir a lei de Deus temendo que o mal aconteça, mas, sim seguir pelo amor misericordioso de Deus por nós, esta aliança se concretiza na entrega total de Jesus.

No Salmo 50(51) elevamos a Deus o pedido para que Ele nos conceda um coração puro e um espirito decidido, e fazemos este pedido não confiando em nossos méritos e sim na misericórdia infinita de Deus.
Criai em mim um coração que seja puro.
Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado e apagai completamente a minha culpa!.
Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis de vossa face nem retireis de mim o vosso Santo Espírito!
Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso! Ensinarei vosso caminho aos pecadores, e para vós se voltarão os transviados.

A Carta aos Hebreus 5,7-9 nos fala da obediência de Jesus ao projeto de Deus.
Leitura da carta aos Hebreus: 7Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus. 8Mesmo sendo Filho, aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que ele sofreu. 9Mas, na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

Recebemos das sagradas escrituras a grande lição de obediência, Jesus em sua condição divina poderia se livrar do sofrimento que estava para acontecer, mas, seguiu obediente a sua missão para nos dar este grande sinal de fé e esperança, pois mesmo sofrendo com a morte na cruz, ela não prevaleceu e Deus o concedeu vida nova, e sobre esta vida a morte não tem mais poder.

No evangelho segundo São João 12,20-33, Jesus se coloca como a semente que deve morrer para gerar vida.
Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo João: Naquele tempo, 20havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa. 21Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”. 22Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus. 23Jesus respondeu-lhes: “Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. 24Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. 25Quem se apega à sua vida perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. 26Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. 27Agora, sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. 28Pai, glorifica o teu nome!” Então, veio uma voz do céu: “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo!” 29A multidão que aí estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. 30Jesus respondeu e disse: “Essa voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, 32e eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim”. 33Jesus falava assim para indicar de que morte iria morrer. – Palavra da salvação. – Glória a Vós Senhor.

Jesus nos mostra que não podemos nos apegar as coisas deste mundo, este é o momento de sermos sementes, colocando a nossa fé em ação para que os outros também possam ter esta experiência com Deus, Jesus abraçou a sua missão e mesmo nos momentos de maior aflição jamais desaminou, foi uma verdadeira semente do mundo novo, e hoje somos nós que devemos levar em frente à missão de Jesus.

Na sua condição humana, Jesus se coloca igual a qualquer um de nós, que sentimos medo e a angustia toma conta da nossa vida, mas, ele coloca a sua confiança em Deus que sempre estava ao seu lado, e encontra força necessária para seguir em frente. Seguindo a Jesus temos a garantia de que Deus nos honrará e que participaremos da sua glória, mas, seguir Jesus vai além do que imaginamos, seguir a Jesus é comprometer-se com a causa daqueles menos favorecidos, foi por isso que Jesus foi perseguido e morto. E nós estamos prontos para ser com Jesus esta semente da nova aliança?

Vivemos em um mundo onde vemos muitas situações de mortes, mas nós cristão não podemos desistir de anunciar e denunciar, anunciar a vida e esperança que vem do Cristo ressuscitado e encontram-se disponíveis a todos aqueles que queiram transformar suas vidas, e denunciar todas as situações de morte que oprime o povo, não podemos admitir que um país como o Brasil de maioria cristão, que o povo padeça com a fome, violência, drogas, prostituição e corrupção, a transformação do nosso país e do mundo deve começar dentro de cada um de nós nas pequenas coisas, sendo o ponto de partida das grandes transformações que podemos realizar juntos. 

Que neste quinto domingo da quaresma possamos encontrar na palavra de Deus a força necessária para sermos esta semente de vida nova e plena, sabemos que o caminho não é fácil, mas Jesus caminha conosco mostrando que juntos somos mais fortes e que nada devemos temer nesta caminhada rumo a uma nova sociedade, justa e igualitária, onde mesmo nas diferenças todos somos iguais, onde todos somos filhos amados de Deus. Que Nossa Senhora nos ajude nesta missão.
Em Jesus, Maria e José.
Rubens Corrêa



sábado, 10 de março de 2018

Deus enviou Seu Filho para que o mundo seja Salvo por Ele (11/03/2018)

A liturgia de hoje repete diversas vezes que Deus nos ama com amor gratuito.

Na Leitura do Segundo Livro das Crônicas Cr 36,14-16.19-23 vemos que a infidelidade do povo fez com que caíssem cativos nas mãos dos babilônicos, mesmo assim anuncia a esperança de voltar para sua terra e reconstruir o Templo do Senhor.
Leitura do segundo livro das Crônicas: Naqueles dias, 14todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém. 15Ora, o Senhor Deus de seus pais dirigia-lhes frequentemente a palavra por meio de seus mensageiros, admoestando-os com solicitude todos os dias, porque tinha compaixão do seu povo e da sua própria casa. 16Mas eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não houve mais remédio. 19Os inimigos incendiaram a casa de Deus e deitaram abaixo os muros de Jerusalém, atearam fogo a todas as construções fortificadas e destruíram tudo o que havia de precioso. 20Nabucodonosor levou cativos para a Babilônia todos os que escaparam à espada, e eles tornaram-se escravos do rei e de seus filhos, até que o império passou para o rei dos persas. 21Assim se cumpriu a palavra do Senhor pronunciada pela boca de Jeremias: “Até que a terra tenha desfrutado de seus sábados, ela repousará durante todos os dias da desolação, até que se completem setenta anos”. 22No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor pronunciada pela boca de Jeremias, o Senhor moveu o espírito de Ciro, rei da Pérsia, que mandou publicar em todo o seu reino, de viva voz e por escrito, a seguinte proclamação: 23“Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra e encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, que está no país de Judá. Quem dentre vós todos pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho”. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

No Salmo - Sl 136,1-2.3.4-5.6 (R. 6a), vemos que os opressores exigiam que o povo que havia escravizado lhe mostrasse sua cultura, seus cantos, mas como cantar, diante da tristeza do cativeiro e da saudade de sua terra, cantam então esse lamento.
Que se prenda a minha língua ao céu da boca se de ti, Jerusalém, eu me esquecer!
Junto aos rios da Babilônia nos sentávamos chorando, com saudades de Sião. Nos salgueiros por ali penduramos nossas harpas.
Pois foi lá que os opressores nos pediram nossos cânticos; nossos guardas exigiam alegria na tristeza: “Cantai hoje para nós algum canto de Sião!”
Como havemos de cantar os cantares do Senhor numa terra estrangeira? Se de ti, Jerusalém, algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão!
Que se cole a minha língua e se prenda ao céu da boca se de ti não me lembrar! Se não for Jerusalém minha grande alegria!

A Leitura da Carta de São Paulo aos Efésios 2,4-10 nos fala do amor de Deus e de sua misericórdia.
Leitura da carta de são Paulo aos Efésios: Irmãos, 4Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, 5quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos! 6Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Jesus Cristo. 7Assim, pela bondade, que nos demonstrou em Jesus Cristo, Deus quis mostrar, através dos séculos futuros, a incomparável riqueza da sua graça. 8Com efeito, é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! 9Não vem das obras, para que ninguém se orgulhe. 10Pois é ele quem nos fez; nós fomos criados em Jesus Cristo para as obras boas, que Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos. – Palavra do Senhor. – Graças a Deus.

No Evangelho de Jesus Cristo segundo João 3,14-21 fica claro que Deus enviou seu Filho ao mundo para que fossemos salvos por Ele.
Proclamação do evangelho de Jesus Cristo segundo João: Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 14“Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. 16Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. 19Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. 20Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. 21Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus”. – Palavra da salvação. – Glória a Vós Senhor.

Deus continua fiel em sua aliança e continua enviando pessoas para transmitir a sua Palavra, Palavra que propaga a verdade e a justiça. Continua existindo pessoas desobedientes, vivendo com atitudes contrárias a proposta de Deus. Paulo deixa claro que o homem não é salvo em decorrência de suas boas obras, mas que essas boas obras são resultado do amor e ação de Deus em nossas vidas.

As boas obras são sinais de que Deus conseguiu realizar coisas boas no coração dos homens e da comunidade. Nós nada fazemos para merecer a salvação, mas Deus nos ama e salva por sua infinita Misericórdia, mas precisamos nos doar, fugir do egoísmo, dos prazeres, das satisfações, das comodidades.

Toda nossa vida é tempo de salvação ou condenação, dependemos da adesão a Cristo, da opção pelo projeto de Deus, dos trabalhos em comunidade para alcançar um ou outro.

Nesse tempo de Quaresma é hora de meditarmos sobre o que estamos fazendo com nossas vidas, estamos agindo de acordo com o projeto de Deus para nós, ou estamos fazendo nossas vontades nos afastando do compromisso com a evangelização que recebemos ainda no nosso batismo.

Estamos trabalhando para que os menos favorecidos acreditem que Deus está presente em nosso meio? Estamos trabalhando para que a justiça prevaleça? Estamos vivendo e ensinando que Jesus Ressuscitado nos ama e quer a salvação de todos em sua infinita Misericórdia?

“É necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.”
Carla Matos

sexta-feira, 2 de março de 2018

“Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” Jo 2, 19 (04/03/2018)

Introdução geral
A Quaresma é um tempo oportuno para revisitarmos a nossa condição batismal, o que implica guardar o precioso tesouro da fé, que brota da obediência à Palavra de Deus. Sem verdadeira escuta das Escrituras, não é possível a fé. Mas o Deus que nos fala na Bíblia fala igualmente na criação, na história do povo, nos acontecimentos da vida e, de modo especial, nas celebrações. Na liturgia, a Igreja comunica a Palavra do Senhor pela proclamação das Escrituras e pelos sinais e ritos que dela extraem o seu significado (cf. SC 24). Contudo, quando os ritos e símbolos perdem seu vínculo com a Palavra, e assim também a vida cristã, a liturgia e demais expressões religiosas podem se degenerar em idolatria.

Comentário dos textos bíblicos
Na sequência do itinerário quaresmal, a comunidade que adentrou com Jesus o deserto para vencer o adversário (domingo das tentações) subiu ao monte para reconhecer sua identidade filial e o apreço amoroso que o Pai lhe devota (domingo da transfiguração). Seguindo os passos do Filho de Deus rumo à Páscoa, somos convidados a aprofundar a relação com o Deus da aliança, buscando purificar nossa experiência religiosa, que encontra no evangelho deste domingo um parâmetro: Jesus é a expressão maior de obediência e de fidelidade a Deus, maior mesmo que o próprio Templo.

I leitura: Ex 20,1-17 – As dez Palavras
Os dez mandamentos são chamados de “dez palavras” (decálogo), isto é, as palavras que, de modo proeminente, Deus entrega ao povo para que sejam observadas. Na versão do Êxodo (primeira leitura), o decálogo é introduzido por duas oportunas recordações: quem fala ao seu povo é o Deus libertador que o tirou da escravidão do Egito e não tolera a idolatria, mas recompensa e protege os que guardam a sua lei; ele é o Deus que, depois de ter criado tudo o que existe, santificou o sábado como dia memorável do seu repouso. Mas é também o dia do repouso, da dignidade e da liberdade humanas. Dessa forma, a lei de Deus, enquanto instituição anterior a qualquer outra, existe para plenificar a vida do povo e para que já não se reproduzam os esquemas de opressão do Egito.

A enumeração dos dez mandamentos decorre dessas afirmativas importantes. Não se trata de um deus estranho, mas daquele que já é conhecido, na sua potência do seu ato criador e na força de seu braço libertador. Os mandamentos são frutos da salvação do povo e da sua fé no Deus que o criou. Não são exigências preceituais sem história e sem uma relação que as preceda e sustente. Estão fundamentados numa experiência e num credo e podem, por isso, ser observados como resposta àquele que é o proponente da aliança.

Em relação ao evangelho, a primeira leitura tem uma função didática de nos apresentar o horizonte do agir de Cristo e do povo. A recordação da libertação e do sentido do sábado, como advertências para que não se reeditem os males sofridos, servirá para entender o acontecimento da purificação do Templo. Além disso, alguns elementos podem ser tomados em paralelo para apontar também um sentido tipológico dos textos. O Deus que libertou o povo da escravidão do Egito manifesta-se na pessoa de seu Filho, libertando-o de suas ações idolátricas. Na primeira leitura, evoca-se a Páscoa dos judeus; no evangelho, a nova Páscoa da ressurreição, por meio da imagem do novo Templo que se erguerá em três dias. Antes, a obra da criação é concluída com o repouso depois do sexto dia. Depois, ao terceiro dia, após o repouso de sua morte, sucede a recriação da humanidade na ressurreição de Jesus.

Evangelho: Jo 2,13-25 – Um ato de violência ou de solidariedade?
Uma moldura abre e apresenta o evangelho: a festa da Páscoa dos judeus comparece no início e quase ao final do relato (v. 13.23). Entre esses dois versículos estão os elementos característicos e decisivos do evangelho: a expulsão dos cambistas com o chicote em punho, o diálogo com os judeus e a glosa explicativa do evangelista a respeito da resposta de Jesus aos judeus. Na área externa do Templo existia um grande átrio que circundava o santuário, chamado de soreg. Ali podiam entrar os pagãos e também ali se estabelecera o comércio de animais para o sacrifício e os cambistas. Na Páscoa, essa atividade era muito intensificada. Esse mercado tinha a função de impedir que o dinheiro pagão entrasse no Templo, mas provavelmente não sem ágio… Era também um esquema que impunha aos peregrinos comprar ali animais que serviriam de oferenda para os sacrifícios. Longe de ser um serviço aos romeiros do Templo, a prática convertera-se em um sistema de exploração, beneficiando não somente os cambistas e vendedores, mas também a casta sacerdotal. Ou seja, a estrutura religiosa do Templo estava de tal modo contaminada pela ganância e pelo pecado que comprometia a sua real função de culto a Deus. Diante dessa situação, Jesus reage vigorosamente, à semelhança dos profetas que sempre denunciaram os desvios das funções do Templo como lugar de oração e de fidelidade. Já segundo um pensamento rabínico, o Messias viria com um flagelo na mão para instaurar um novo tempo.

Na fala de Jesus observa-se um sentido autoritativo: a expressão “casa de meu Pai” evoca sua relação singular com Deus. Mais que um ato violento, a expulsão dos vendilhões do Templo é gesto autorrevelador, pois reuniu muitos elementos constitutivos da identidade de Jesus: profeta, Messias e Filho de Deus. Convém lembrar que Jesus reage à violência anteriormente praticada contra os pobres e humildes por meio da exploração religiosa.

Já a objeção dos judeus tem por trás uma atitude de rejeição que denota falta de fé e contrasta com a dos discípulos. Os judeus lhe exigem uma comprovação, por meio de um sinal, que justifique sua atitude. Já os discípulos recordam as Escrituras, recorrendo ao Salmo 69, muito conhecido e apreciado na Antiguidade cristã como um salmo messiânico. A objeção, contudo, viabiliza a resposta de Jesus, que não responde à questão apresentada. Falando do seu corpo, como elucida a glosa do evangelista (v. 21), Jesus utiliza uma palavra em grego que se diferencia do edifício Templo, naós, isto é, santuário, o lugar onde o Santo habita. O verbo destruir (o Templo) aludiu à sua morte, e o verbo erguer à sua ressurreição. Este é o único sinal que Jesus lhes apresenta, em perspectiva futura: seu corpo ressuscitado, erguido ao terceiro dia, é a morada de Deus, pois em Jesus se realiza a fidelidade que já não se encontrava no Santuário de Jerusalém.

II leitura: 1Cor 1,22-25– Os judeus pedem sinais
Entre os cristãos de Corinto, reinava outro tipo de violência e de idolatria: uma grande divisão entre pobres e ricos e, ainda, entre os partidos que lá se formaram – os de Paulo, os de Pedro e os de Apolo, bem como entre os de origem judaica e os de origem grega. Paulo era considerado pelos coríntios como um pregador de menor capacidade em relação a Apolo e a Pedro. Contudo, em sua pregação, o apóstolo muda o foco. Sem defender-se mediante a sabedoria e a eloquência, afirma a cruz de Cristo, único sinal apresentado como cerne da pregação da Igreja. A cruz responde, sim, à demanda dos que foram chamados, dos que guardaram a fé, isto é, dos que acolhem a Palavra de Deus, sendo considerada pelos judeus como escândalo e como insensatez pelos gregos. Loucura e fraqueza para os seres humanos, ela é expressão da sabedoria e da força divina. Esse é o cerne da Palavra que gera a fé cristã e requer a adesão dos chamados, contrariando a lógica dos que exigem sinais e explicações, tal como a dos judeus escandalizados com Jesus no evangelho. A cruz de Cristo é sinal que se afirma como maior do que as nossas recusas e infidelidades, pois nela está presente o amor fiel de Deus, que chegou a ponto de nos dar o seu Filho único para que tenhamos a vida.

Dicas para reflexão
O evangelho deste domingo termina afirmando que Jesus conhecia o ser humano por dentro. A Quaresma, como tempo de revisitar nossa adesão a Jesus, dada por meio do batismo, supõe deixar de lado qualquer sinal de religiosidade que nos distancie daquele que purificou o Templo de Jerusalém. A cruz e ressurreição de Jesus são ápice e expressão de sua fidelidade a Deus. Auxiliados por esse Deus que perscruta os corações, somos chamados a rever nossas infidelidades e nossa real adesão à vontade do Pai.

O Templo, como santuário onde Deus habita, é o corpo morto e ressuscitado de Jesus. O batismo nos insere nesse mesmo corpo de Cristo, fazendo-nos passar continuamente da morte para a ressurreição. Isto é, em Cristo somos também santuário onde habita Deus. A destruição do Templo implica também fazer morrer em nós um tipo de religiosidade idolátrica para fazer surgir nova edificação em Cristo, na qual se dá uma adoração verdadeira.

A Campanha da Fraternidade aborda neste ano o tema da violência. A superação da violência pela via da fraternidade é requisito indispensável da vivência da fé cristã. O ato de Jesus no Templo deve ser considerado como indignação contra outro tipo de violência que se pratica ao destituir e explorar os pobres com argumentos religiosos, mas distantes de Deus. O novo caminho instaurado por Jesus supõe o enfrentamento da violência com a Palavra da cruz, que vence com base naquilo que é aparentemente loucura e fraqueza.

Neste domingo convém recordar que o compromisso batismal comporta sensibilidade para com os irmãos e irmãs mais pobres. Nossas liturgias e demais instituições religiosas devem se pôr a serviço do soerguimento de tantos que têm a dignidade violentada pelos sistemas econômico, social e religioso. A defesa e a solidariedade com os pobres e a preocupação com a vida podem até ser lidas como atos de violência, mas são justa indignação em favor dos que são sistematicamente violentados pela exclusão.


(Pe. Danilo César dos Santos Lima, Presbítero da Diocese de Belo Horizonte, ROTEIROS HOMILÉTICOS,
Vida pastoral)
Luis Filipe Dias